por Paulo D’Amaro - Novembro 2011
Quem acompanha os noticiários sabe que volta e meia se ouve falar de mazelas e percalços em nossos vizinhos latino-americanos. Mas, se você prestar bem atenção, verá que existe um país que dificilmente figura nas manchetes. É o Uruguai. Com apenas 3,5 milhões de habitantes, nosso vizinho tem um índice de desenvolvimento humano (IDH ) bem maior que o do Brasil e empatado com Chile e Argentina. Ou seja, é uma nação estável, muito segura e amigável quando se fala de turismo. Sobretudo graças a seu povo polido e educado, que tem o maior índice de escolaridade do continente. Os uruguaios sabem como ninguém na América do Sul investir em novidades sem destruir os marcos de seu passado. Por isso, viajar para as principais cidades da pequena nação é certeza de unir diversão e conhecimento. A elegante Punta del Este, a europeizada Montevidéu e a histórica Colonia del Sacramento guardam, cada uma à sua maneira, boas surpresas para os visitantes.

Punta del Este – para apostar suas fichas
Ela está para o Uruguai como o Rio de Janeiro para o Brasil. Em outras palavras, repleta de belas praias, é a capital nacional do turismo, da diversão e da alegria. Mas com diferenças fundamentais em relação à “nossa” cidade maravilhosa. Punta é um lugar muito seguro, onde o jogo é permitido, sem que isso crie qualquer problema – pelo contrário. Também é menor, muito menor. Sua população fixa não ultrapassa 22 mil pessoas. Mas aumenta quase 10 vezes nos períodos de férias, principalmente graças à invasão de argentinos. É comum a classe média-alta de Buenos Aires ter casas de veraneio por ali. Afinal, basta um voo de uma hora ou uma viagem de ônibus e barco que dura cerca de seis horas para chegar lá.
Obviamente, o principal atrativo são as praias. Situada numa “esquina” do território uruguaio, ela tem seu coração em uma península de pouco mais de 2 km de comprimento por 500 metros de largura. Dessa forma, a cidade ganhou o privilégio de agregar, a poucos metros de distância, tanto praias de águas calmas – boas para famílias com crianças – quanto as repletas de ondas e vento – na medida para os fãs de esportes radicas. Basta escolher, respectivamente, entre o lado oeste (voltado para o Rio da Prata) ou leste (de cara para o Oceano Atlântico). Os nomes já dizem tudo: se de um lado se destaca a Playa Mansa, do outro desponta a Playa Brava.
Alguns marcos visuais embelezam o cenário e tornam fácil se localizar. É o caso da célebre escultura de uma mão saindo da areia, um símbolo da cidade. La Mano, como é chamada, foi uma criação do artista plástico Mario Irarrazabal para representar “a presença do homem surgindo da natureza”. Poesias à parte, o fato é que ninguém sai de Punta sem uma foto ali.
Mas há quem prefira um cenário mais tradicional: o Farol de Punta, situado na pontinha da península. Construído em 1860, sua estrutura permanece intacta após 151 anos, graças a um achado científico casual: a argamassa usada, feita a base de terra vulcânica trazida da Itália, se mostrou mais resistente até que o concreto, curiosidade que leva muita gente a querer conhecer o “farol indestrutível”. A maioria, porém, se interessa simplesmente pelo agradável panorama da construção em meio a palmeiras, pertinho do mar – talvez não haja no balneário imagem mais inspiradora e poética que essa. Dá para subir os 145 degraus até o alto do farol e, de lá de cima, vislumbrar quilômetros e mais quilômetros de litoral.
Engana-se, contudo, quem imagina Punta Del Este como uma pacata vilazinha praiana. Num passeio pela Rambla, o calçadão beira-mar, você certamente ouvirá o ronco do motor de algum Porsche, Ferrari ou Mercedes, provavelmente indo em direção às mais bacanas opções de lazer de toda a região: os cassinos. O Conrad, por exemplo, tem 75 mesas de jogos espalhadas por uma área equivalente à de dois campos de futebol - e tudo no estilo mais moderno e exuberante. Inclui um hotel superconfortável, com 294 apartamentos, duas piscinas, quadras de tênis e restaurantes sofisticados. Seu maior concorrente é o Mantra, igualmente luxuoso e famoso por sediar uma etapa da Latin American Poker Tour – o torneio continental de pôquer, jogo que virou mania no mundo nos últimos anos.
Era de se esperar que a “Las Vegas uruguaia” acolhesse turistas de alto padrão e garantisse bons restaurantes. Punta tem isso - e com alternativas em conta também. Um dos melhores lugares para experimentar os frutos do mar trazidos das vilas pesqueiras vizinhas é o El Viejo Marino, restaurante inconfundível, graças a sua decoração peculiar: ele lembra um navio, com paredes azul-marinho, madeiras escuras e objetos náuticos dentro e fora. Por 500 pesos (cerca de R$ 42), você degusta a versão uruguaia da paella, prato farto, de origem espanhola, acompanhada de antepastos, entradas e sobremesas. No Brasil, o mesmo menu sairia por quase o dobro do preço.
Preços que, por sinal, podem ser tentadores até quando o assunto é compras. Certamente as lojas de Punta não são tão vantajosas quanto às da capital Montevidéu, mas, com um pouquinho de sorte, você acha pechinchas no Punta Shopping, o maior centro comercial da cidade, onde há igualmente cinemas, pista de kart e boliche – ideal para deixar os filhos enquanto se procura pelas pechinchas. Se o que importa para você, no entanto, é a exclusividade dos produtos e não tanto o valor dos descontos, a pedida é o Fashion Plaza, galeria com lojas de diversas grifes famosas, localizada no Conrad Resort & Casino. Os brasileiros dificilmente saem de lá sem algum artigo de couro – especialidade uruguaia.
Mas não gaste todos os seus pesos nas mesas dos cassinos e nas lojas. Guarde um pouco para a noite de Punta, tão agitada que virou presença constante em programas de TV como o Wild On, do canal americano E!. Obrigatório conhecer o Moby Dick Pub, bar freqüentado por gente jovem e animada, num ambiente escurinho, embalado por música ao vivo e 25 opções de drinques exóticos. Ou ainda o Tequila, templo da música eletrônica sempre com celebridades e DJs do momento.
Esses são apenas alguns das dezenas de bares, discotecas e casas noturnas que fazem do balneário a capital da alegria no Uruguai. Um lugar onde os agitos se estendem pelo dia, de sol a sol.

Montevidéu – qualidade insuperável
Nenhuma capital na América Latina tem qualidade de vida tão alta quanto a de Montevidéu. Foi isso que revelou um amplo estudo feito EM 2010 pelo instituto internacional de pesquisas Mercer Human Resource Consulting. Se você ainda duvida que se trata de uma metrópole muito amigável, basta dizer que, no ranking mundial elaborado pelo mesmo estudo, Montevidéu deu uma “goleada” nas grandes cidades brasileiras: ficou 32 posições à frente de São Paulo e 41 posições à frente do Rio de Janeiro.
E não pense que a vida boa é apenas por causa do tamanho. A capital tem 2 milhões de habitantes – o que não é pouca gente. Ao visitá-la, você logo perceberá duas agradáveis diferenças em relação a outras metrópoles sul-americanas. Primeiro, é um lugar com baixíssimo índice de criminalidade, onde ainda se caminha calmamente à noite, em quase todos os bairros. A exceção é a zona portuária – como, aliás, em qualquer lugar do mundo. A segunda diferença é a facilidade de transporte e locomoção, em suas avenidas largas, com a orla do Rio da Prata e suas praias servindo de referência.
Os uruguaios, assim com nós, adoram futebol. E têm no Estádio Centenário um de seus maiores orgulhos. Por isso, não deixe de ir até lá. É um lugar histórico, de significado mundial. Foi construído para sediar a primeira Copa do Mundo, em 1930. No museu anexo, você desvenda muito da história do esporte na América do Sul. Um verdadeiro templo ao futebol.
Por sinal, é bom lembrar que os uruguaios são fanáticos também pelo Carnaval. Mas não exatamente o nosso. Eles têm sua própria versão, uma das mais animadas do mundo, com desfiles de bonecos e blocos de mascarados. Mesmo que você viaje para lá em outra época, pode sentir o gostinho da folia no Museu do Carnaval. Colorido e interativo, ele trás a história e registros das festas em detalhes. E atenção especial é dada às crianças, com setores exclusivos para elas brincarem de pierrôs e colombinas.
História também é a atração na Ciudad Vieja, como é conhecida a porção mais antiga da capital, não muito longe do Estádio. Até 1877, era cercada por uma muralha, da qual atualmente resta apenas um portão, conhecido como Porta da Cidadela. Restaurado em 2009, o portão dá acesso a um calçadão agradável, chamado Peatonal Sarandí. Ao longo dele, cafés, pequenos restaurantes, livrarias, museus e galerias de arte garantem um charme todo especial. Sem contar o Teatro Solis, casa de espetáculos inaugurada 1856. Imponente por fora, ele encanta por dentro, com seu lustre de cristal de três metros de diâmetro, suas cadeiras em veludo vermelho dispostas em quatro andares de camarotes e suas paredes folheadas a ouro
E como toda cidade beira-rio que se preza, Montevidéu tem sua área de compras e venda de peixes e afins. Na verdade, o Mercado del Puerto deixou há muito tempo de ser uma feira. Fundado em 1868 como estação ferroviária, o prédio virou o maior pólo gastronômico da metrópole, com restaurantes diversos e barraquinhas onde você pode comprar conservas e enlatados.
Por falar em gastronomia, um dos passeios mais na moda atualmente é pelas vinícolas que brotam nas cercanias da cidade – o Uruguai é um emergente produtor de vinhos. São lugares como a H. Stagnari, fazenda centenária que oferece visitas monitoradas pelos vinhedos e pelas caves dos tintos mais famosos do país, atualmente exportados até para a França. E, se você desejar, pode incluir no passeio a degustação de vários tipos e safras.
O vinho é o companheiro perfeito para as deliciosas carnes produzidas nas planícies ultraférteis da pequena nação. Há restaurantes de sobra para apreciá-las. Alguns se destacam, como o El Palenque, aberto desde 1958. Ele ganhou fama pelas carnes de novilhos, cordeiro e porco criadas de forma a garantir maciez e sabor incomparáveis. Também é procurado em virtude das receitas feitas à base de arroz, bem no estilo dos vaqueiros dos pampas.
Vaqueiros lembram couro. E couro é um dos produtos mais típicos do Uruguai. Impossível resistir às roupas e artigos oferecidos no Montevideo Shopping Center, o primeiro no país. Entre suas 180 lojas, muitas são especializadas nisso e vivem lotadas de brasileiros. No entanto, saiba que há boas compras também pelas ruas do centro. Convém pesquisar antes de sair abrindo a carteira. De qualquer modo, dificilmente você fará um mal negócio levando para casa o legítimo couro uruguaio.

Colônia Del Sacramento – patrimônio da humanidade
Ela é a antítese de Punta Del Este e de Montevidéu. Ou seja, em vez de badalação, oferece erudição. Em vez de agitos, garante paz. Declarada “patrimônio da humanidade“ pela Unesco em 1995, a cidadezinha de Colônia Del Sacramento, no litoral do Uruguai, compõe um dos mais belos e bem preservados exemplos de arquitetura colonial do planeta. Um recanto histórico, que é quase uma aula viva sobre o passado do país e da América do Sul.
Colonia tem menos de 25 mil habitantes e ainda é desconhecida da maioria dos brasileiros, que acabam perdendo a oportunidade de desfrutá-la quando viajam ao Uruguai ou à Argentina. Você deve estar perguntando: “Argentina?”. Sim, é isso mesmo. A cidade fica relativamente perto de Buenos Aires e há diversos passeios de barco que saem da capital portenha em direção ao rincão uruguaio.
Mas o que há por ali? Vamos às atrações. Fundada no Século 17 pelos portugueses, a cidade conserva ruazinhas de paralelepípedos, com casas feitas há 300 anos, que hoje abrigam lojas, restaurantes e pousadas. Tudo isso à beira mar. Uma mistura de Paraty com Ouro Preto – à moda uruguaia.
Vale a pena visitar El Faro, o centenário Farol de Colônia, uma construção singular no mundo, erguida sobre as ruínas do convento de São Francisco em 1857. Do alto de seus 118 degraus, você avista até Buenos Aires, do outro lado do Rio da Prata. E também vê toda a cidade, inclusive uma das raras arenas de touradas da América do Sul.
Trata-se da Plaza de Toros Del Real de San Carlos, a única do estilo mourisco espanhol no Uruguai. Inaugurada em 1910, ela funcionou apenas dois anos, até que o governo banisse as touradas em 1912. Depois, teve diversas utilidades até ser interditada nos anos 80.
A história da Plaza de Toros é contada no interessante Museu Municipal, um dos seis estabelecimentos do gênero na cidade. Por sinal, é imperdível visitar também o Museu do Azulejo, que, apesar de diminuto, conta com preciosidades no seu interior, remontando o design lusitano dos séculos 16, 17 e 18 com peças que foram usadas em todas as colônias portuguesas – do Brasil à Ásia.
De lá fica fácil perambular pelo Bairro Histórico e sua arquitetura admirável, exemplificada por marcos como a Puerta de la Ciudadela e a Basílica do Santíssimo Sacramento. Detalhe: vale visitar esse recanto tanto de dia como à noite, pois as antigas luminárias conferem um ar romântico pra lá de sedutor depois que o sol de põe.
Falando em sedução, a gastronomia é um convite ao pecado da gula em Colônia. Há restaurantes de estirpe, como o La Florida, situado em uma casa erguida há mais de 140 anos – e que, acredite, foi um prostíbulo por décadas. Comandado pelo chefe de cozinha argentino Carlos Bidanchon, ele tem como especialidade o salmão preparado de diversas formas, além de uma carta de vinhos respeitável.
Outro destaque é o Pulperia de los Faroles. Mais discreto (e em conta), apresenta massas e peixes grelhados no menu, além de um farto café da manhã e um refinado chá da tarde – ambos cheios de guloseimas – servidos ao ar livre. Nos jantares, há música ao vivo, indo do tradicional uruguaio ao jazz.
Assim como os restaurantes, os hotéis de Colônia surpreendem pela qualidade. Afinal, como esperar grandes opções de hospedagem numa cidade tombada, onde é proibido derrubar qualquer coisa para erguer outra? O fato é que mesmo adaptadas em construções antigas, as boas alternativas existem. Até mesmo a cadeia internacional Radisson tem ali um de seus hotéis, com 60 quartos dotados de hidromassagem e com vista para o Rio da Prata. Igualmente charmosa é a Posada Del Angel, que, de forma simples e barata, garante conforto e um clima romântico.
Na verdade, difícil seria não se sentir seduzido nessa pequena pérola colonial do litoral uruguaio. Ao lado da gostosa capital Montevidéu e do chique balneário de Punta Del Este, a histórica Colônia Del Sacramento faz do Uruguai um lugar que, definitivamente, merece ser visitado pelos brasileiros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário